Média tensão

Parametrização e Ajuste de Relés de Proteção: critérios técnicos e próximos passos

Entenda em quais situações este serviço pode ser necessário, o que precisa ser verificado e como a análise técnica orienta a decisão sobre parametrização e ajuste de relés de proteção.

Por Danilo Felipe · Atualizado em · 8 min de leitura

Parametrização e Ajuste de Relés de Proteção: imagem ilustrativa 1
Imagem ilustrativa relacionada a parametrização e ajuste de relés de proteção. Foto: Pexels.

Em resumo: Parametrização e Ajuste de Relés de Proteção deve seguir um projeto ou procedimento definido, com responsabilidades, testes e critérios de aceitação compatíveis com a instalação. A execução, isoladamente, não substitui a análise prévia nem a documentação necessária.

Atenção às referências: normas técnicas, regulamentos e padrões de concessionárias têm escopo e edições específicos. Antes de contratar ou executar, confirme a versão vigente e sua aplicabilidade ao local e à finalidade do trabalho.

O que fazer agora se a concessionária exige o laudo ou o relé desarmou indevidamente

Se você está pesquisando sobre parametrização e ajuste de relés de proteção neste exato momento, é quase certo que você esteja vivenciando uma destas duas situações críticas:

  1. A concessionária local de distribuição de energia travou a ligação da sua cabine primária: Para energizar uma subestação nova ou autorizar o aumento de carga, as concessionárias exigem formalmente a entrega do Laudo de Parametrização e Ensaio de Relé com ART assinada por engenheiro habilitado, acompanhado das folhas de ensaio de injeção de corrente e tensão;
  2. Sua planta industrial sofreu uma interrupção inesperada: O relé de proteção disparou a bobina de abertura do disjuntor de média tensão sem que houvesse curto-circuito visível, ou pior, ocorreu um defeito interno em uma máquina e o relé não atuou, transferindo a falha para a rede da concessionária e provocando uma penalidade contratual pesada.

Essa situação gera apreensão imediata, pois o relé numérico microprocessado é o "cérebro" de toda a segurança da sua subestação. Se esse cérebro estiver descalibrado, com os valores padrão de fábrica (default factory settings) ou com erros de lógica digital, sua empresa está totalmente vulnerável.

  1. Não altere valores nos menus do visor frontal do relé: Os relés numéricos modernos possuem dezenas de matrizes de lógica booleana, relações de transformação de TCs e TPs, e curvas de tempo inverso (IEC ou IEEE). Alterar parâmetros aleatoriamente pelo teclado frontal pode inverter lógicas de disparo ou bloquear funções essenciais de proteção contra choque e incêndio.

O que é a parametrização de relés e qual a sua função na subestação

Nas subestações elétricas de média tensão (13,8 kV, 23 kV ou 34,5 kV) presentes em indústrias, shoppings e condomínios, a corrente e a tensão que circulam nos barramentos principais são elevadas demais para serem medidas diretamente por aparelhos convencionais.

Por essa razão, utilizam-se Transformadores de Corrente (TCs) e Transformadores de Potencial (TPs). Esses sensores reduzem os sinais da rede para valores padronizados de instrumentação (normalmente 5A ou 1A para corrente, e 115V ou 220V para tensão) e os enviam continuamente para o relé de proteção.

O relé numérico microprocessado analisa esses sinais centenas de vezes por segundo através de algoritmos digitais avançados. A parametrização de relés é a programação criteriosa desses algoritmos. Nela, o engenheiro eletricista define exatamente:

  • Quais os limites máximos de corrente contínua admissíveis antes de considerar uma sobrecarga;
  • Qual a curva matemática de atuação temporizada a ser seguida;
  • A partir de qual corrente instantânea o relé deve comandar o desarme imediato em menos de 30 milissegundos;
  • Quais saídas digitais do relé acionam a bobina de abertura (trip coil) do disjuntor de média tensão.

Sem a parametrização correta, o relé é apenas uma caixa metálica inerte instalada na porta do cubículo.

As principais funções de proteção ansi configuradas no relé

A engenharia elétrica mundial utiliza uma codificação padronizada pelo American National Standards Institute (ANSI) para identificar cada uma das funções de proteção implementadas nos relés. O infográfico funcional a seguir demonstra como essas funções operam de forma integrada:

As funções mais utilizadas e obrigatórias em cabines primárias e subestações industriais incluem:

  • ANSI 50/51 (Sobrecorrente de Fase Instantânea e Temporizada): Protege contra sobrecargas severas e curtos-circuitos entre condutores de fase. A função 51 atua segundo uma curva de tempo inverso (quanto mais alta a corrente, mais rápido o disparo), enquanto a função 50 opera instantaneamente ao atingir a corrente de curto-circuito franca;
  • ANSI 50N/51N e 50G/51G (Sobrecorrente de Terra): Detecta correntes de fuga ou defeitos entre fase e a carcaça metálica aterrada da instalação. Como as correntes de falta à terra são menores do que as trifásicas, essa função possui altíssima sensibilidade e salva vidas contra contatos indiretos perigosos;
  • ANSI 27/59 (Subtensão e Sobretensão): Desliga o disjuntor caso a tensão fornecida pela concessionária caia além do limite admissível (evitando danos a motores) ou ultrapasse níveis seguros (evitando queima de equipamentos eletrônicos sensíveis);
  • ANSI 81 (Subfrequência e Sobrefrequência): Essencial para instalações com cogeração local, geradores a diesel ou usinas solares fotovoltaicas conectadas em paralelo com a rede;
  • ANSI 87 (Proteção Diferencial de Transformador ou Barramento): Compara instantaneamente a corrente que entra e a corrente que sai do transformador. Se houver qualquer divergência interna (falha no enrolamento), o relé atua em menos de 20 milissegundos, impedindo a destruição do transformador.
Parametrização e Ajuste de Relés de Proteção: imagem ilustrativa 2
Imagem ilustrativa relacionada a parametrização e ajuste de relés de proteção. Foto: Pexels.

Por que o teste de injeção secundária é obrigatório e relevante

Um dos erros mais graves que constatamos em auditorias é a falsa crença de que "parametrizar o relé pelo software no computador é suficiente".

Digitar os parâmetros no software e transmiti-los para o relé configura apenas a programação lógica. Isso não ajuda a obter que o relé desarmará o disjuntor em uma emergência real.

Podem existir falhas ocultas imperceptíveis, tais como:

  1. Uma porta analógica de entrada do relé danificada por surto atmosférico anterior;
  2. A fiação que conecta o contato de saída do relé à bobina de disparo (trip) do disjuntor partida ou com mau contato;
  3. A bobina de abertura do disjuntor queimada ou emperrada mecanicamente;
  4. O banco de baterias ou fonte capacitiva que alimenta o circuito de disparo sem carga suficiente.

A mala injeta correntes e tensões elétricas simulando com precisão absoluta uma falta real (por exemplo: injeta 15A simulando um curto-circuito de 600A no primário). Um cronômetro digital de alta resolução mede com precisão de milissegundos se o relé identificou a falta na curva correta e se o disjuntor abriu perfeitamente.

Como o ajuste do relé conecta o estudo de seletividade à realidade física

A parametrização de relés não existe no vácuo. Ela é a etapa executiva que materializa na prática todos os estudos de engenharia anteriores:

Principais erros cometidos na configuração de relés em média tensão

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Imagem ilustrativa relacionada a parametrização e ajuste de relés de proteção. Foto: Pexels.
  • Manter o relé com a parametrização de fábrica: Muitos cubículos novos são energizados sem qualquer ajuste. O relé sai da fábrica com ajustes genéricos que não guardam nenhuma relação com a potência do transformador da empresa;
  • Inversão da relação de TC: Se o transformador de corrente possui primário duplo (por exemplo, 50-100/5A) e o eletricista configurou o relé para 50A enquanto os cabos estão conectados na derivação de 100A, o relé "enxergará" metade da corrente real, demorando o dobro do tempo para desarmar em caso de curto-circuito mortal;
  • Não habilitar a proteção de terra residual (50N/51N): Faltas fase-terra com arcos intermitentes podem não atingir a corrente de disparo de fase, provocando incêndios prolongados no transformador se a função de terra estiver inativa;
  • Falta de alimentação auxiliar segura: Em um curto-circuito severo, a tensão alternada da subestação desaba para quase zero. Se a bobina de disparo do disjuntor depende exclusivamente da tensão alternada da rede e não possui uma fonte capacitiva (no-break capacitivo) ou banco de baterias em corrente contínua, o relé tenta dar o comando, mas o disjuntor não consegue abrir.

Perguntas frequentes (faq) sobre parametrização de relés

O que é o ensaio de injeção secundária e em que ele difere da injeção primária?

A injeção primária injeta correntes altíssimas diretamente nos barramentos principais de média tensão, testando conjuntamente o TC e o relé. A injeção secundária desconecta os cabos nos bornes secundários do TC e injeta correntes de até 5A diretamente no relé com uma mala microprocessada, testando com precisão milimétrica a eletrônica do relé, as temporizações das curvas e o comando de abertura do disjuntor.

É necessário desligar a subestação para realizar o teste de injeção secundária?

Sim. Para testar o comando mecânico de trip no disjuntor e atuar com absoluta segurança nos secundários dos TCs sem risco de sobretensão perigosa, o cubículo de proteção deve ser desenergizado, bloqueado e aterrado temporariamente segundo os procedimentos da NR-10.

O laudo de parametrização é obrigatório para ligar a energia na concessionária?

Sim. Conforme as normas técnicas das distribuidoras de energia (como Enel, CPFL, Cemig, Copel, Neoenergia, Light e Equatorial), nenhuma subestação com proteção primária por disjuntor de média tensão é energizada sem a apresentação prévia do laudo de ensaio e parametrização com ART.

Exclusivamente engenheiros eletricistas com registro ativo no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (CREA) e com Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) emitida para a atividade técnica específica de comissionamento e ensaios elétricos.

Como definir o próximo passo

Reúna a exigência recebida, os projetos e relatórios existentes, informações sobre alterações recentes e o objetivo da demanda. Não abra quadros, faça medições ou se aproxime de partes elétricas para produzir esses dados.

A Felipe Engenharia pode analisar o contexto, indicar quais verificações são necessárias e delimitar o escopo adequado. A definição de projeto, laudo, responsabilidade técnica, acompanhamento ou execução depende do que for identificado e contratado.

Apresente sua situação à Felipe Engenharia

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Imagem ilustrativa relacionada a parametrização e ajuste de relés de proteção. Foto: Pexels.
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